Palantir e Sua Estrutura Fiscal: Uma Análise Detalhada

A Palantir Technologies, uma proeminente empresa de análise de dados e inteligência artificial dos Estados Unidos, tem sido objeto de um novo relatório que examina sua estratégia fiscal. De acordo com o estudo do Centro para a Responsabilidade Fiscal Corporativa Internacional e Pesquisa (CICTAR), a empresa, que possui contratos significativos com o aparato militar e de inteligência norte-americano, “engenhou sua estrutura corporativa” para evitar o pagamento de imposto de renda corporativo federal nos EUA. Esta revelação surge em um momento em que a Palantir registra um crescimento substancial de suas receitas, em grande parte devido a contratos governamentais, ao mesmo tempo em que enfrenta críticas por seu envolvimento tecnológico com as forças armadas israelenses.

Principais Descobertas do Relatório

O relatório do CICTAR aponta que, apesar de um crescimento robusto – com a Palantir reportando uma receita de US$ 1,94 bilhão no segundo trimestre, um aumento de 93% em relação ao ano anterior –, sua taxa de imposto efetiva global foi de meros 1,4% em 2025. O estudo também detalha como a empresa supostamente transfere lucros de suas operações no Reino Unido e na Europa para sua matriz nos EUA. Essa prática resulta em lucros tributáveis relativamente baixos nas jurisdições onde o trabalho é de fato realizado. No Reino Unido, por exemplo, a Palantir registrou uma despesa de imposto corporativo de aproximadamente 2 milhões de libras (US$ 2,7 milhões) em 2024, apesar de ter garantido mais de 670 milhões de libras (US$ 900 milhões) em contratos governamentais nos últimos anos.

O CICTAR argumenta que essa estratégia permite à Palantir aproveitar perdas passadas e benefícios fiscais nos EUA, resultando em pouco ou nenhum imposto de renda corporativo federal. A empresa também se beneficiou de mudanças fiscais implementadas durante a administração Trump, que reduziram a alíquota federal corporativa de 35% para 21% em 2017. É importante notar que o relatório não alega qualquer ilegalidade nas práticas da Palantir, mas levanta questões éticas sobre a contribuição fiscal de uma empresa que obtém bilhões de dólares em contratos públicos globalmente.

“A precificação de transferência, que aloca os lucros de uma empresa entre entidades dentro do grupo de empresas Palantir, é uma prática totalmente padrão que é virtualmente universal para grandes empresas multinacionais.”
— Porta-voz da Palantir ao jornal The Guardian do Reino Unido.

Contexto e Controvérsias da Palantir

Fundada em 2003 por Alex Karp e o investidor Peter Thiel, a Palantir inicialmente recebeu apoio da In-Q-Tel, um fundo de capital de risco sem fins lucrativos criado pela CIA para apoiar startups de alta tecnologia. Com um valor de mercado de cerca de US$ 370 bilhões, a Palantir se estabeleceu como uma das maiores empresas de capital aberto do mundo. No entanto, sua ascensão tem sido acompanhada por controvérsias, especialmente em relação ao seu trabalho com autoridades de imigração dos EUA, como a ICE, e seu envolvimento com as forças armadas israelenses. Críticos apontam que a tecnologia da Palantir permite a fusão de vastos conjuntos de dados, incluindo registros financeiros, de imigração e de saúde, levantando preocupações sobre privacidade, vieses algorítmicos e o avanço de um estado de vigilância.

A Palantir tem uma “parceria estratégica” com Israel, tendo aberto escritórios no país em 2015. O relatório do CICTAR menciona um “surge” de investimentos em Israel após os ataques de 7 de outubro de 2023 e uma parceria estratégica com o Ministério da Defesa israelense em janeiro de 2024 para análise de dados e IA. Plataformas de pesquisa como a Open Intel indicam que o software da Palantir pode combinar comunicações interceptadas, imagens de satélite e outras informações para auxiliar as forças israelenses na criação de listas de alvos militares. O CEO Alex Karp tem defendido abertamente o apoio da empresa a Israel, afirmando que “Israel está do lado do bem”.

Detalhes da Contribuição Fiscal da Palantir

Em 2025, a Palantir não pagou imposto de renda corporativo federal nos EUA, contribuindo com apenas US$ 2,5 milhões em impostos estaduais. Este foi o terceiro ano consecutivo em que a empresa evitou o imposto federal. O CICTAR estima que a Palantir acumulou mais de US$ 3,5 bilhões em ativos fiscais diferidos por meio de perdas anteriores, créditos de pesquisa e desenvolvimento e deduções relacionadas a ações concedidas a funcionários. Esses benefícios fiscais podem ser usados para compensar futuros lucros, potencialmente isentando a empresa de impostos federais sobre os próximos US$ 16,5 bilhões em lucros por muitos anos.

Globalmente, a Palantir pagou menos de US$ 21,7 milhões em impostos de renda em 2025, líquido de reembolsos, apesar de registrar lucros antes de impostos de US$ 1,66 bilhão. Suas maiores contribuições fiscais fora dos EUA foram na Coreia do Sul (US$ 5,8 milhões) e no Japão (US$ 4,8 milhões). O Reino Unido, que é o maior mercado da Palantir fora dos EUA com US$ 427 milhões em receita em 2025, não figurou entre os países de maiores pagamentos de impostos.

Impacto dos Contratos Governamentais

O relatório do CICTAR enfatiza a relevância das práticas fiscais da Palantir devido à sua dependência de contratos públicos para um crescimento acelerado. Mais da metade da receita da empresa provém de clientes governamentais. No Reino Unido, a Palantir possui contratos governamentais avaliados em pelo menos 670 milhões de libras (US$ 901 milhões), incluindo um acordo de 330 milhões de libras para construir a Plataforma de Dados Federada do NHS e um contrato de 240 milhões de libras com o Ministério da Defesa, concedido sem licitação competitiva. Este último contrato, em particular, gerou críticas de profissionais de saúde e grupos de direitos digitais, que questionam a decisão de confiar dados sensíveis de pacientes a uma empresa envolvida em controvérsias relacionadas ao uso de sua tecnologia no conflito em Gaza.

Duncan McCann, líder de tecnologia e dados da Good Law Project no Reino Unido, descreveu as descobertas como “um tapa na cara dos contribuintes comuns e empresas locais que cumprem as regras”. A Amnesty International, por sua vez, pediu ao governo do Reino Unido que reconsidere os contratos com a Palantir até que a empresa possa demonstrar que não está contribuindo para o que a organização descreve como “genocídio, apartheid, ocupação ilegal ou outros crimes sob o direito internacional” por parte de Israel.