Pedido de Recuperação Judicial Abrange Múltiplas Empresas
O Grupo Casas Bahia, que detém as operações das redes Casas Bahia e Ponto Frio, além do e-commerce Extra.com e da fabricante de móveis Bartira, solicitou recuperação judicial na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Justiça de São Paulo. A petição, apresentada na noite de domingo (16), revela um passivo de R$ 17,3 bilhões e engloba um total de dez empresas da holding, incluindo subsidiárias de logística e tecnologia.
A documentação entregue à Justiça indica a demissão de aproximadamente 3.000 funcionários, de um quadro total de 30.117 colaboradores, e o encerramento das atividades de quase 300 lojas. Atualmente, a Casas Bahia opera com mais de 700 lojas físicas, enquanto o Ponto Frio possui mais de 65 unidades.
Histórico e Fatores Contribuintes para a Crise
Este pedido de recuperação judicial ocorre cerca de dois anos após a varejista ter homologado uma recuperação extrajudicial, em abril de 2024, que reestruturou R$ 4,8 bilhões em dívidas financeiras. A companhia atribui a atual crise a uma combinação de fatores, incluindo investimentos significativos em tecnologia, logística e lojas digitais iniciados em 2019, que foram impactados pela pandemia, resultando na paralisação das lojas físicas.
A petição destaca que o plano de digitalização foi concebido em um período de taxa Selic historicamente baixa (2% ao ano, entre o final de 2020 e início de 2021). No entanto, a subsequente elevação dos juros, que atingiram patamares próximos a 15% ao ano, desorganizou a estrutura financeira do grupo. O modelo de negócios da varejista, altamente dependente de capital de giro, financiamento de estoques, operações de risco sacado com fornecedores e crédito direto ao consumidor, foi severamente afetado pela escalada dos juros e da inflação. Isso resultou no encarecimento do crédito, na redução da renda das famílias de menor poder aquisitivo e no aumento da inadimplência em carnês e cartões, além de um crescimento expressivo da concorrência de plataformas digitais.
As iniciativas do chamado Plano de Transformação, implementado em 2023 com foco em corte de despesas, redução de estoques e fechamento de 55 lojas deficitárias, proporcionaram apenas um alívio pontual, segundo o documento.
Medidas de Urgência Solicitadas
Para evitar a paralisação imediata de suas operações, a Casas Bahia solicitou uma série de medidas de urgência na petição inicial. A principal preocupação do grupo é o risco de vencimento antecipado de mais de R$ 10 bilhões em contratos financeiros e comerciais. A empresa argumenta que a retenção de garantias de cartão de crédito e Pix pelos bancos poderia drenar até 60% da entrada mensal de caixa, tornando o negócio inviável.
As solicitações incluem a suspensão imediata de execuções por 180 dias, a proibição do vencimento antecipado de contratos comerciais e a manutenção do fluxo regular de recebíveis, impedindo retenções por parte dos bancos credores. O grupo também pede a obrigatoriedade da entrega de mercadorias já compradas em trânsito com fornecedores e a liberação de mais de R$ 750 milhões em depósitos de recursos trabalhistas, referentes a ações anteriores, para reforçar o caixa operacional.
Prejuízo Acumulado e Situação Patrimonial
A rede anunciou um prejuízo de R$ 10,1 bilhões, em contraste com a perda de R$ 555 milhões registrada no mesmo período do ano anterior. Consequentemente, o patrimônio líquido da Casas Bahia apresenta um valor negativo de R$ 8,1 bilhões, indicando que, mesmo após a venda de todos os seus bens e direitos a receber, ainda haveria um déficit bilionário para quitar com os credores. Atualmente, o valor de mercado da varejista na Bolsa é de R$ 660 milhões.
A empresa, que não é mais controlada pela família Klein, tem a gestora Mapa Capital como acionista de referência, detendo 85,5% do capital desde agosto do ano passado. Este é o oitavo trimestre consecutivo de perdas para a Casas Bahia. Desde o segundo trimestre de 2024, período em que entrou em recuperação extrajudicial, os prejuízos têm crescido, ultrapassando R$ 1 bilhão nos períodos mais recentes e evidenciando a severidade da crise financeira da companhia.