Impacto da Perspectiva Eleitoral no Real
A dois meses do pleito presidencial, e com a crescente percepção de uma possível reeleição do atual governo, o mercado financeiro tem ajustado suas estratégias em relação à moeda brasileira. Após um período em que investidores mantiveram posições compradas no real, observa-se agora a incorporação de um 'prêmio eleitoral', influenciando a dinâmica da divisa nacional.
A mudança de cenário foi impulsionada, em parte, pela revisão da recomendação para o Brasil pelo JP Morgan e pela exclusão dos papéis da Stone da carteira MSCI Brazil. Essas ações, de instituições de referência no mercado, ocorreram em um momento de maior dificuldade do Tesouro Nacional em negociar títulos públicos, como as NTN-B e NTN-F.
Vulnerabilidade do Real e Preocupações Fiscais
Análises recentes de grandes bancos indicam que, apesar de ainda existirem posições compradas significativas em real, há um movimento de desmonte dessas posições. Este comportamento, segundo os especialistas, aumenta a pressão sobre a moeda doméstica. A expectativa é que, quanto maior a consolidação da vantagem eleitoral do atual presidente nas pesquisas, maior será a volatilidade no mercado, especialmente devido às preocupações com a trajetória fiscal pós-2026.
A desvalorização do real, que acumulou uma queda de aproximadamente 2% na semana, superou o desempenho de outras moedas de mercados emergentes. Este movimento é atribuído principalmente ao aumento da percepção de risco eleitoral.
“Nenhuma [dificuldade], isso tem que ficar muito claro. O Tesouro se prepara para, quando chegar próximo do ciclo de eleições, formar um colchão de liquidez para isso. Há uma incerteza sobre o futuro, que é normal, numa eleição. Naturalmente, há mais demanda por LFTs. Isso é muito distinto de falar que o Tesouro tem dificuldade de se financiar”, afirmou Rogério Ceron, secretário-executivo do Ministério da Fazenda.
Apesar da garantia do secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, de que o Tesouro Nacional não enfrenta dificuldades para financiar a dívida pública, a percepção geral no mercado é de um desinteresse por investimentos de longo prazo no Brasil. Isso se reflete na maior procura por LFTs (Letras Financeiras do Tesouro), títulos indexados à Selic, indicando uma aposta dos investidores na atuação do Banco Central para controlar a inflação, caso ela volte a se tornar um problema.
Impacto nas Posições de Investidores
Para reduzir a exposição ao real, investidores têm diminuído suas posições mais longas na moeda brasileira e procurado divisas de países com menor incerteza política. Dados da International Money Market (IMM) e de pesquisas do JP Morgan mostram que as posições compradas em BRL ainda são elevadas, mas a expectativa é que o real se torne mais vulnerável a oscilações com o início oficial da campanha eleitoral.
A superação da média móvel de 200 dias do dólar, em torno de R$ 5,20, ativou ordens automáticas de compra, e bancos e gestores estão reduzindo a exposição ao real, substituindo-o por outras moedas emergentes. Esse movimento sinaliza uma mudança de sentimento no mercado, com o 'prêmio eleitoral' começando a ser mais visível.
Política Fiscal Pós-Eleição
Além do resultado eleitoral, a política fiscal após 2026 é um dos principais pontos de preocupação para o mercado. A questão central para os analistas é se um eventual governo reeleito conseguirá implementar os ajustes fiscais necessários em 2027, ou se a pressão do mercado sobre os preços dos ativos será determinante para essa correção. Um interlocutor da campanha do presidente mencionou a intenção de evitar 'cascas de banana' ao anunciar projetos de ajuste fiscal, mas sinalizou a possibilidade de enviar propostas estruturantes ainda em 2026, em caso de vitória.