Trabalhadores da Saúde na RDC Exigem Pagamento em Meio à Crise do Ébola

A República Democrática do Congo (RDC) enfrenta uma crise de saúde pública agravada por questões laborais, com dezenas de profissionais de saúde na linha da frente da epidemia de Ébola a entrarem em greve. A paralisação, motivada pela falta de pagamento de salários, ocorre num momento crítico em que a doença continua a propagar-se a uma velocidade alarmante, com o número de mortos a exceder a marca de 1.800.

Os protestos mais recentes tiveram lugar em Bunia, capital da província de Ituri, uma região que concentra quase 90% dos casos de Ébola registados no país. Estes profissionais de saúde juntam-se a outros grupos que iniciaram greves semelhantes há várias semanas, todos exigindo o pagamento de salários e bónus prometidos desde o início da epidemia, em meados de maio.

“Com esta forma de gerir as coisas, o Ébola não terminará nesta província”, afirmou Edouige Makosi, uma das manifestantes, à agência noticiosa The Associated Press. “Pedimos às autoridades que se envolvam a todos os níveis para que uma solução seja encontrada rapidamente.”

As autoridades congolesas atribuíram anteriormente os atrasos nos pagamentos a problemas logísticos. Contudo, não houve comentários imediatos sobre as recentes reivindicações dos trabalhadores. A falta de condições adequadas para os trabalhadores da linha da frente tem sido uma preocupação constante nesta epidemia, que assola uma das áreas mais remotas e vulneráveis da RDC, já devastada por conflitos entre grupos armados. A situação é ainda mais complicada por ataques frequentes a profissionais de saúde e instalações médicas por parte de rebeldes e populações enfurecidas.

Aumento Preocupante de Casos e Mortes

Os protestos coincidem com o aumento contínuo dos casos de Ébola. Dados governamentais mais recentes, divulgados na quinta-feira, indicam que os casos confirmados atingiram 3.973, com 1.801 mortes. Esta é a segunda maior epidemia de Ébola registada na história, apenas superada pelo surto na África Ocidental entre 2014 e 2016, que resultou em mais de 28.000 casos e um excesso de 11.000 óbitos.

Atualmente, 674 pacientes encontram-se em isolamento, a maioria na província de Ituri. Embora 75% dos contactos dos pacientes estejam a ser rastreados, as autoridades expressam preocupação com o facto de 60-70% dos novos casos estarem a surgir fora desses contactos. Estes novos casos provêm maioritariamente de localidades remotas, onde conflitos rebeldes e atividades mineiras limitam severamente o acesso e a capacidade de resposta.

Apelos Urgentes por Ação e Apoio

Durante uma visita à RDC na quarta-feira, o Diretor-Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, apelou às autoridades para que deem prioridade ao cuidado e apoio aos profissionais de saúde que estão a responder à epidemia.

A organização médica Médicos Sem Fronteiras (MSF) alertou que a epidemia “continua a espalhar-se a um ritmo alarmante e sem precedentes”. A MSF sublinhou que, apesar da expansão das medidas de resposta, estas “ainda não estão a chegar às comunidades com rapidez suficiente para quebrar as cadeias de transmissão”.

“É necessária uma ação imediata”, declarou Philippa Boulle, diretora médica adjunta da MSF, num comunicado na quarta-feira. “Cada dia perdido permite que o vírus se mantenha um passo à frente e que mais vidas sejam perdidas desnecessariamente.”

A combinação de conflito, acesso limitado, desconfiança da comunidade e agora a greve dos trabalhadores da saúde cria um cenário complexo e desafiador para conter a propagação do Ébola na RDC. A resolução das reivindicações salariais e a garantia de segurança e apoio aos profissionais de saúde são passos cruciais para fortalecer a resposta e proteger tanto os que combatem a doença como as comunidades afetadas.