Contexto da Proposta
O partido britânico de direita Reform UK apresentou uma iniciativa polêmica denominada “Operação Fortaleza”, que visa empregar a Marinha Real para interceptar e devolver solicitantes de asilo que tentam chegar ao Reino Unido por meio do Canal da Mancha. Nigel Farage, líder do partido, descreveu a ação não como uma expulsão, mas como um “resgate e retorno”, argumentando que sua natureza humanitária a isentaria de violar o direito internacional. No entanto, essa interpretação foi contestada pelo Ministério do Interior francês e por especialistas em direito e migração.
Farage, que enfrenta pressão política interna devido a escândalos financeiros e uma eleição suplementar iminente, comparou a situação atual no Canal da Mancha à chegada de migrantes ao enclave espanhol de Ceuta. Ele prometeu, caso eleito, lançar a maior operação militar no Canal da Mancha desde a Segunda Guerra Mundial para deter o que chamou de “invasão”, garantindo que as pessoas sejam “imediatamente devolvidas ao seu ponto de partida”. Em resposta às críticas francesas, o Reform UK declarou que defenderá os interesses britânicos e protegerá seu povo, independentemente da opinião do presidente Emmanuel Macron.
Zia Yusuf, porta-voz do Reform UK para assuntos internos, fez alegações de que a França teria “enviado 200.000 migrantes ilegais, incluindo assassinos e terroristas” para o Reino Unido, e que os fuzileiros navais os devolveriam à costa francesa. Essas declarações acentuam a tensão diplomática em torno da proposta.
Implicações Legais e Diplomáticas
Organizações e analistas consideram a proposta irrealista e potencialmente geradora de um sério conflito diplomático. O Centre for Military Justice salientou que as leis marítimas internacionais não permitem que as forças armadas de um Estado entrem em águas territoriais de outro Estado para deter e devolver pessoas, e que tal ato poderia constituir uma “flagrante violação” de convenções internacionais.
Mihnea Cuibus, pesquisador sênior do Migration Observatory da Universidade de Oxford, alertou que uma ação unilateral por parte do Reino Unido teria um “grande efeito diplomático”, levando a França a suspender a cooperação existente, como o compartilhamento de informações de inteligência e patrulhas costeiras no norte da França. Ele também mencionou a possibilidade de a França tentar repelir navios britânicos no Canal para impedir retornos. Cuibus concluiu que a implementação do plano não seria tão simples quanto ordenar a implantação da Marinha Real em território francês, exigindo um acordo bilateral que a França parece relutante em aceitar.
Sarah Singer, professora de direito de refugiados na Universidade de Londres, classificou o plano como um “completo desperdício de recursos militares”. Ela enfatizou que, com a oposição clara da França, a tentativa de devolver pessoas teria “enormes repercussões diplomáticas entre o Reino Unido e seus vizinhos mais próximos”, com potenciais consequências para questões de interesse mútuo, como comércio e inteligência. Singer acrescentou que a devolução de solicitantes de asilo poderia ser interpretada como um “ato de agressão” pela França e seria contrária ao direito internacional. As expulsões sumárias, segundo ela, violam a lei britânica e europeia, que exige a avaliação individual dos casos de proteção para determinar se a remoção pode ser feita com segurança.
Precedentes e Críticas Internas
A estratégia de usar a Marinha para impedir travessias não é inédita. Uma tática semelhante foi considerada em 2022 pelo governo conservador de Boris Johnson, mas foi abandonada por ser considerada um “truque”. Naquela época, a então Secretária do Interior, Priti Patel, afirmou que a “Operação Isótopo” tornaria a travessia do Canal “inviável”, mas o plano foi descartado após militares expressarem preocupações sobre os perigos e a exposição a ações legais.
O ex-comandante da Marinha, Tom Sharpe, ecoou essas preocupações, descrevendo o compromisso do Reform UK como “esboçado na teoria, perigoso na prática”. Sharpe explicou que a Marinha Real só poderia entrar em águas e portos franceses sem permissão invocando a Convenção Internacional para a Salvaguarda da Vida Humana no Mar (SOLAS), um tratado marítimo que estabelece o dever geral de resgatar pessoas em perigo. Ele alertou que isso colocaria “marinheiros e fuzileiros navais na posição indesejável de ter que fingir que uma travessia de rotina era SOLAS, e então provavelmente criar uma situação real de perigo ao intervir”, classificando a estratégia como “no mínimo, dissimulada”.
Perspectiva Humanitária e Política
Na terça-feira, mais de 150 pessoas foram resgatadas enquanto tentavam atravessar o Canal quando sua embarcação pegou fogo. Farage reagiu à notícia prometendo “acabar com isso”, afirmando que seu plano “salvaria vidas”. Richard Tice, vice-líder do Reform UK, defendeu que o “resgate e retorno” era a “ação humanitária a ser tomada” para “parar as mortes”.
Enquanto isso, o primeiro-ministro Andy Burnham declarou na segunda-feira que seu governo será “incansável” na redução do número de pessoas que chegam ao Reino Unido pelo Canal. O governante Partido Trabalhista acusou o Reform UK de usar a questão da migração para desviar a atenção de perguntas sobre suas finanças, em meio a relatos de presentes e doações a figuras importantes do partido.
Pesquisas recentes do YouGov indicam que, se uma eleição geral fosse realizada, o Reform UK obteria 17% dos votos, o Partido Trabalhista 19% e os Conservadores 14%. Sarah Wolff, professora de estudos internacionais e política global na Universidade de Leiden, observou que, embora missões militares anteriores, como a Mare Nostrum da Marinha Italiana (2013-2014), tenham salvado dezenas de milhares de vidas e permitido o processamento de pedidos de asilo na Itália, o plano do Reform UK visa “devolver os migrantes à França e não assumir qualquer responsabilidade pelo processamento de pedidos de asilo”, tornando-o equivalente a uma expulsão. Antes do Brexit, o Reino Unido podia devolver solicitantes de asilo ao primeiro país de entrada sob a Convenção de Dublin. Agora, “não tem meios para devolvê-los a um país da UE”, tornando irônica a proposta de um partido que fez campanha para “retomar o controle” e agora busca soluções para uma situação migratória pós-Brexit que ajudou a criar.