Luana Flores e a Visão de um Nordeste Futuro
A música nordestina tem demonstrado uma constante projeção para o futuro, um traço evidente em movimentos históricos como o 'udigrudi' de Alceu Valença, que uniu rock psicodélico a baião e forró, e o manguebeat de Chico Science e Nação Zumbi, que fundiu soul, hip-hop, rock, maracatu e ciranda. Seguindo essa linhagem, a compositora paraibana Luana Flores emerge com uma proposta similar, mas com uma roupagem contemporânea.
Luana, que atua como cantora, beatmaker e DJ, lançou em julho seu disco de estreia, intitulado 'Cria do Sol Quente'. O trabalho é uma fusão de suas raízes nordestinas com a música eletrônica, uma exploração iniciada com seu EP 'Nordeste Futurista' em 2021. Sua abordagem não se limita a remixar ritmos tradicionais como baião, forró e coco; ela se insere ativamente na criação, participando de iniciativas de batucada e incorporando esses elementos desde a concepção.
Um Álbum de Identidade e Colaborações
O álbum, que conta com nove faixas, aborda questões de pertencimento, territorialidade e o poder feminino. A sonoridade é enriquecida pela presença de instrumentos tradicionais como rabeca, sanfona e pífanos, harmonizados com as batidas eletrônicas de Flores. 'Cria do Sol Quente' apresenta diversas colaborações notáveis. O single de Cátia de França, remixado por Chico Correa, abre o disco, simbolizando uma 'ativação da criança' interior, segundo Flores, que também assina a produção do trabalho.
Outras participações incluem Juliana Linhares na faixa 'Alumeia', lançada como single em 2024, e as artistas Jéssica Caitano e Tiquinha Rodrigues em 'Ladainha do Mato'. O produtor Ramiro Galas, ex-Forró Red Light, contribui em 'Coragem e Fé', promovendo um diálogo entre diferentes gerações de produtores, reforçado pela presença de Chico Correa.
Descentralização e Permanência no Território
A visão artística de Luana Flores vai além da música, buscando uma descentralização do mercado e a valorização da cultura popular. Diferente do movimento histórico de artistas nordestinos que migravam para o Sudeste, Luana opta por fortalecer suas raízes na própria região. Ela enfatiza que sua música reflete sua vivência local, e embora realize turnês pela Europa e visitas a grandes centros como São Paulo para estabelecer conexões, seu retorno ao Nordeste é constante.
Sua jornada itinerante a levou a morar em diferentes pontos do interior da Paraíba e do sertão cearense. A capa do disco, uma fotografia de Luana aos três anos com um toca-fitas e seu primeiro microfone, simboliza a semente de sua trajetória. Para a artista, 'Cria do Sol Quente' representa um rito de expansão, um rompimento de barreiras e a projeção de uma nova energia através de sua obra.
Ficha Técnica
- Autoria: Luana Flores
- Gravadora: Independente
- Distribuição: Nikita Music
- Onde ouvir: Nas plataformas digitais