A gênese de uma amizade e um filme

Em 1970, em um período de intensa repressão da ditadura militar, Honestino Guimarães e Aurélio Michiles compartilharam um momento de descontração assistindo a 'Satyricon' de Federico Fellini. Honestino, já uma figura proeminente no movimento estudantil e clandestino, tranquilizou um apreensivo Aurélio, que temia pela segurança do amigo. Esse episódio marcou profundamente o cineasta, que anos depois transformaria essa amizade e a trágica história de Honestino em um filme.

Aurélio Michiles chegou a Brasília em 1968, aos 16 anos, vindo de Manaus. Enquanto se preparava para o vestibular de arquitetura na UnB, Honestino já era uma das principais lideranças estudantis da capital. Michiles descreve a relação como uma amizade, não apenas uma convivência. A ideia de fazer um filme sobre Honestino, embora latente, foi adiada por anos devido à natureza 'dramática' e 'trágica' da história.

O reencontro com a memória

A decisão de produzir o filme surgiu de forma inesperada. Ao receber um vídeo da reinauguração da ponte Honestino Guimarães em Brasília, onde Lucas, neto de Honestino, discursava, Aurélio foi profundamente tocado. Em conversa com a escritora Isaura Botelho, ele expressou sua intenção de fazer um filme sobre 'Gui', apelido de Honestino. Pouco depois, Isaura entregou a ele uma caixa contendo objetos pessoais de Honestino: cartas, fotografias, poesias e documentos da Ação Popular, que se tornaram materiais preciosos para a produção. Nesse processo, Aurélio encontrou Nilson Rodrigues, produtor brasiliense que já nutria uma ideia semelhante, e juntos deram vida ao projeto.

Entre o arquivo e a dramaturgia

Filmar o período da ditadura militar apresenta desafios significativos, indo além da mera preservação de documentos. Inspirado por Alberto Cavalcanti, que borrava as fronteiras entre documentário e ficção, Michiles buscou construir uma narrativa que transcendesse a simples compilação de fatos históricos. O objetivo era criar uma dramaturgia capaz de conectar o passado ao presente, encontrando a metáfora em cada história revelada. No caso de 'Honestino', a metáfora reside na tentativa de iluminar um capítulo ainda obscuro da história brasileira, não apenas resgatando um personagem desaparecido, mas compreendendo o que sua trajetória pode ensinar à atualidade.

O filme retrata Honestino não apenas como uma vítima da ditadura, mas como alguém que enfrentou os dilemas de sua geração e tomou decisões fundamentadas nos contextos políticos de seu tempo. Sua história é apresentada em paralelo com os desafios contemporâneos na defesa da democracia.

O significado de lembrar

Embora imagens em preto e branco e documentos oficiais registrem os acontecimentos, eles nem sempre conseguem transmitir a vivência sob ameaça. O filme de Aurélio Michiles busca mostrar o jovem que, apesar de enfrentar a repressão, ansiava por um momento de lazer com um amigo. O cineasta não buscou inicialmente uma grande reação social, mas sim levar o público às salas de cinema para conhecer a história de um jovem que dedicou sua vida à defesa da liberdade e da democracia.

Honestino Guimarães foi assassinado aos 26 anos pela ditadura militar, e seu corpo nunca foi encontrado. Esse desaparecimento permanece como uma ferida aberta para familiares, amigos e para a própria história do Brasil. Aurélio Michiles expressa a esperança de que o filme 'Honestino' não apenas divulgue sua história, mas também possa despertar alguém que detenha informações ainda não reveladas sobre seu desaparecimento, buscando fazer justiça a esse episódio hediondo.